REPRESENTAÇÃO POLÍTICA E QUALIDADE POLÍTICA
JANUÁRIO, Sérgio S.
Mestre em Sociologia Política
É certo que teríamos imensas dificuldades de praticar a Democracia Direta, na qual cada cidadão interessado chegaria a uma praça para discutir, abertamente, Planejamento e Organização do uso de recursos públicos. A Ágora [praça das antigas cidades gregas onde eram realizadas assembleias para decisões coletivas] fora transferida para sistemas de mediação variados: consultas públicas, partidos políticos e candidatos eleitos pela população.
Tudo isso não se reverte em necessário não-compromisso ou em pessoas descomprometidas com as decisões que são tomadas pelos gestores públicos: deputados, senadores, governadores, prefeitos, vereadores. Tampouco que os eleitos possam simplesmente considerarem-se “proprietários” da representação política. Cada um dos eleitos, e o conjunto dos eleitos, é meio para os interesses coletivos, e não “os seus interesses” ou de sua forma particular de pensar os rumos de uma cidade, estado ou nação.
Começam aí os problemas da Democracia e da Representação Política. Quando eleitos, o comportamento dos candidatos é de isolamento, de decisões privativas. Por estarem eleitos passam a difundir a legitimação precária de que os votos lhe outorgam a pessoalidade ou a particularidade das decisões. Faltam-nos, aí, qualidade para a Democracia. Em alto brado “Eu fui eleito e por isso posso fazer o que eu quiser” é a expressão da apropriação indébita do posto de Representação Política [Patrimonialismo].
Sentir-se “dono do poder” é exatamente se distanciar da representação para a qual foi eleito ou eleita. O Patrimonialismo é contra as pessoas e contra o bom-senso político. Por fim, afasta a população das decisões políticas ou da influência nas decisões políticas. Por sua caminhada, os eleitores ficam com o encargo de juizado e a cada eleição passam a julgar os candidatos. Não há espaços para se votar em Planejamento do País, Projetos de Estado, Planos de Cidades. Ao juiz-eleitor cabe a condenação primeiro e o futuro depois.
O eleitor tende a se sentir fortalecido, imperador-do-voto, rei-da-eleição; fará julgamento sumário, condenará suspeitos, aniquilará oposições. Os candidatos, cada um, se dirá voz da população nos espaços de representação, defensor de ideias coletivas, interessados em estar junto do povo [expressão que não encontra rosto algum]. Findada a eleição, os eleitos apresentam-se nos ritos dos vitoriosos, nos festejos aristocráticos e nas condições de donos do poder.
Qualidade Política da Representação Política é o exato oposto das ocorrências de exercícios dos cargos legislativos e executivos que encontramos hoje. Não, você não foi eleito para governar segundo suas ideias; você não venceu! A conquista somente poderá ser vitória quando o cargo for exercido pelas pessoas, para as pessoas, com as pessoas de sua cidade ou estado [tarefa nem tão difícil em virtude das redes sociais]. O eleito estaria proibido de realizar decisões sem consultar, de modo constante, grupos de representantes sociais variados. Emendas parlamentares são recursos públicos, impostos coletivos dos representados e não “dinheiro trazido por um deputado qualquer” [somente se for realizado com recursos privados de um eleito].
É profundamente necessário que os candidatos de hoje e os eleitos de amanhã elaborem Planejamentos Regionais e Organização de Planos para depois, e somente depois, procurarem recursos públicos para obras públicas. Representação Qualificada é mais do que boa vontade!
Sugestão de Trilha Sonora: LUMIAR
Artista: BETO GUEDES
Autor: RONALDO BASTOS e BETO GUEDES
Álbum: A PÁGINA DO RELÂMPAGO ELÉTRICO
Ano de Lançamento: 1977
Imagem: GERADA POR IA