QUALIDADE DE VIDA PARA AQUELES QUE AINDA NÃO NASCERAM
JANUÁRIO, Sérgio S.
Mestre em Sociologia Política
O que aconteceu na história para que existissem países desenvolvidos e países “em desenvolvimento”? Nações da América Latina, África e Ásia foram colonizadas por países europeus. O sentido de ser colonizado corre para os lados de que se tornaram fontes de riqueza aos seus colonizadores, terras de exploração. Mas países como estados Unidos e Canadá também são ex-colônias, e desde o século XX são países desenvolvidos.
Recentemente, a China se colocou na mesma condição e se tornou o maior exportador de bens e serviços automatizados ou de alto valor tecnológico agregado. Isso fez com que o ponto de controle financeiro global mudasse o centro gravitacional da economia. Muitas razões podem ser elencadas rapidamente: renda percapita, maturidade democrática [cultura e substancialidades de cidadania, sistemas de controle social sobre o comportamento político, liberdade positiva como bem comum e não com base em polarizações, condição de produtividade por hora de trabalho...].
Todos estes aspectos são os mais aparentes, mais rapidamente vistos e, portanto, os mais superficiais. Desde o homo sapiens vivemos numa profusão de crescimento e miséria, um ciclo de desenvolvimento e carência em períodos de três gerações. Daí extraímos ditos populares como “Pai Rico, Filho Nobre, Neto Pobre”. Sempre que em uma comunidade ou aldeia havia aumento de alimentação causado por melhorias em técnicas ou tecnologia de caça, coleta, produção agrícola ou na pecuária, rapidamente havia aumento da população. Com mais alimentos era mais seguro ter mais filhos e aumentar as possibilidades de que as crianças se tornassem adultos. Este ciclo malthusiano [Thomas Malthus, 1766-1834] considera que o crescimento demográfico é geométrico e o aumento de alimentos tem progressão aritmética. Assim, o crescimento populacional é mais rápido que o aumento de recursos alimentares disponíveis. Este é o espiral de crescimento e miséria.
Mas algo mudou na história a partir da Revolução Industrial. A diferença profunda está no investimento educacional, no preparo do capital de desenvolvimento humano. O desenvolvimento no padrão de vida se deu por razões de investimentos educacionais. O ciclo virtuoso da modernidade está fixado nas condições de status dos cientistas e intelectuais, na preparação educacional como desafio ao desenvolvimento permanente. Desde que o capital humano foi colocado como central ao desenvolvimento diminuímos a mortalidade infantil, aumentamos a expectativa de vida, regrediu a quantidade de mortes por doenças infecciosas, aumentamos a quantidade de alimentos disponíveis e a produtividade por hora/trabalho. Por certo, tudo isso promoveu custos, especialmente ambientais, decorrentes do estilo de produção e de consumo.
A diferença entre nações desenvolvidas e em desenvolvimento, as indisfarçáveis discrepâncias internas entre regiões no Brasil, estão relacionadas aos investimentos em educação. A Revolução Industrial se sustentou com novas invenções, com mudança de visão de mundo e filosofia de vida, com a educação pública e por mais tempo de dedicação na formação educacional. Assim escapamos da espiral malthusiana.
Mais hospitais, melhorias em infraestrutura, rigores em saneamento básico, políticas de segurança são quesitos de urgência [fenômenos graves de atenção rápida, mas sem riscos imediatos de falência]. A emergência se coloca na qualidade da formação educacional, da constituição intelectual e científica de um país, dos investimentos imediatos em sistemas educacionais mais bem compostos em qualidade filosófica e instrumental, de um lado, e material e operacional por outro.
Em períodos eleitorais nos deparamos com candidatos das urgências, dos requisitos de tormentos sociais, do imediato. São importantes porque falam do que vivenciamos ao sairmos de casa para trabalhar, estudar, comprar, ainda que sob o risco do populismo. E há os candidatos das emergências, da construção do futuro, da formação educacional, científica e intelectual, que defendem políticas para escaparmos da arapuca malthusiana. Estes são candidatos que falam em Desenvolvimento Seguro, em preparar as cidades para aqueles que ainda não nasceram. São fundamentais!
Sugestão de Trilha Sonora: MARVIN [PATCHES]
Artista: TITÃS
Autor: RONALD DUNBAR, NORMAN JOHNSON – VERSÃO DE SÉRGIO BRITO, NANDO REIS,
Álbum: TITÃS
Ano de Lançamento: 1984
Imagem: DO AUTOR