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POLÍTICA, ELEIÇÃO E VALORES DO VOTO

JANUÁRIO, Sérgio S.

Mestre em Sociologia Política

 

Na próxima segunda-feira estaremos diante dos resultados eleitorais. Dessa árvore se darão frutos: análises políticas, os “porquês” dos resultados, o daqui para frente... Os vencedores clamarão que sua personalidade, seus valores, sua existência foram aprovados pelos eleitores. Os que perderam recolherão seus resultados, apontarão culpados, pensarão em desistir...

O eleitor virá se desmanchar no ar seu aporte imperial da Política. O “Tempo da Política” se desfaz, o Império do Eleitor se esvai. Ninguém mais vai pedir ao eleitor qualquer coisa, nem será sua voz em algum lugar. Uma vez que não é cidadão, a Política toma o trem para outra estação. “Livre” do eleitor, o eleito passa a ocupar o trono, a decidir sobre seu império de eleito, a se imaginar como dono do cargo.

O eleitor e o voto são valorizados pela Política, condecorados pelos mais ilustres títulos aristocráticos, convidados para as “festas” eleitorais, para os banquetes de promessas. Valorizado por credenciais condecorativas, o voto e o eleitor são marcas fundamentais às transições políticas, às revisões de oportunidades ao futuro. Como conceito científico, como parâmetro filosófico, os discursos enaltecem as eleições como oportunidades de futuro, o eleitor como fundamento de poder, o voto como destino coletivo. Aqui se fala em Democracia, República, Liberdade, Sociedade, necessidades Coletivas.

O eleitor e o voto são, no fundo, desvalorizados pelas eleições. A posição de escolher um candidato como revolta e vingança a outro, como guerra social, como comportamento de conflito e confronto, descredencia o debate, manipula as diferenças, sangra os argumentos e distorce a realidade. Passada as eleições, em poucos dias, ninguém mais vai procurar escutar o eleitor porque, eleito, é dono daquele poder. Aqui se fala individualmente [o eleito], se considera representante de si [eleito, suas vontades pessoais lhe serão suficientes], dono do poder se legitima como personalidade interiorizada em seu umbigo.

O eleitor vale, como espécie política, até o momento do voto. Depois tudo se encontra na rotina do dia a dia do cotidiano: trabalho, contas, desafios a vencer, chefias titubeantes; escola, trânsito, acidentes, perigos e incertezas, vitórias e autorrecompensas; vizinhos e moradores do lado, amigos e colegas, paixões. O dia de todos os dias retoma seus dias!

O cidadão perdura no tempo como poder, está centralizado em direitos e deveres, assume as razões coletivas da vida, se perpetua no outro como ser legítimo de existência política. Das faixas de pedestres saem “espíritos” de direitos e deveres para pedestres, motoristas, ciclistas. O “espírito” de cidadania me faz ver, antes, o direito legítimo do outro legítimo e o meu dever necessário orientado ao outro legítimo. A Cidadania organiza nossa vida coletiva, nos confraterniza como conjunto, nos enfeita pela partilha.

Nossa cultura política, forjada pela Colônia Portuguesa na América [1500-1822], na formação política edipiana do primeiro império [1822-1831 – tórridos 9 anos], nas tentativas de liberalismo durante o segundo Império [1841-1889 – intensos 48 anos], das frustrações da República e dos movimentos de golpes políticos [1889-...], afasta a cidadania e abafa com lenções molhados a vela que ilumina o cidadão. Na penumbra, resta-lhe o voto!

O Personalismo Político [por eleito considerar-se como herói do povo] e o Patrimonialismo [ajustar o poder político do cargo como algo pessoal, alimentado por múltiplos cargos comissionados, orçamentos vastos para exercício do cargo político e se apoderar de volumosas emendas parlamentares de orçamento público para “representar as bases”] são resultados do que a nossa história nos dá como educação de longo prazo para fazermos o que fizemos, do jeito que fizemos. As eleições passam a reforçar esses tutoriais de Patrimonialismo e Personalismo e desmerecer nosso futuro comum.

Quando você sair de casa para votar pense nas escolas e nas condições da educação; no posto de saúde e nas condicionantes de saúde e doença; nas estradas, trânsito, mobilidade, filas, engarrafamentos; no saneamento ainda em condição elementar do básico e na segurança sanitária; nos processos de trabalho e impostos que nos engolem como leões em caça.

O seu voto, embora ato individual, nunca será pessoal. Quando você votar passará a indicar o futuro comum para todos os outros, inclusive aos que ainda não nasceram. Isso, como as plantas que bebem da luz do sol para a fotossíntese e geração de cores, é um trago de cidadania. Votar é responsabilidade coletiva. Ao invés de um candidato, tenha um plano de futuro coletivo! “Seu” voto para todos!

 

Sugestão de Trilha Sonora: INÚTIL

Artista: ULTRAJE A RIGOR

Autor: ROGER MOREIRA

Álbum: NÓS VAMOS INVADIR SUA PRAIA

Ano de Lançamento: 1985

Imagem: DO AUTOR



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