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PARA ONDE? DOULOS VAI VOTAR

JANUÁRIO, Sérgio S.

Mestre em Sociologia Política

 

Doulos, uma criança ainda a completar 4 anos, enfrenta a imposição do mundo frente aos seus apetites egocêntricos. Até ali o mundo orbitara ao seu redor, sendo Doulos a força de atração gravitacional nas vidas de seus protetores e admiradores. Ainda em formação social e sem ter aspirado por completo as regras sociais de convivência, se rebela contra tudo o que não for a satisfação de seus desejos. Com preparação inicial, sem in-corpo-rar as referências de comportamento necessárias a interação entre as pessoas, chora aos berros em frenético escândalo social, se joga ao chão, se faz arrastado... Inconformada à decadência de sua imposição egoísta, o infante cresce aprendendo que nem toda a revolta é capaz de conduzir à aceitação dos outros. Por vezes, a egolatria provoca punições.

Ao crescer um tanto mais, já tendo apreendido pela experiência de seus 11 anos que entre os indivíduos existe um conjunto de valores sociais que conduzem as interações sociais, Doulos procura refúgios para fazer valer suas vontades. As relações virtuais proporcionadas via internet parecem ser bunkers ou abrigos antiaéreos contra os ataques das regras sociais sobre sua existência. Ali se pode ser sem responsabilidade ou com irresponsabilidade. Aliás “responsabilidade” é uma das primeiras exigências à convivência.

Doulos se posiciona como controlador, gestor do mundo no qual se inscreve. Computador avançado, cadeira de presidente-gamer, fones aos ouvidos, a vida se transfere aos jogos. Página à página, aplicativo a aplicativo, game a game, se pretende dominador, decisor, dono das regras. Sem “morrer”, logo “ressuscita”! Tudo aparece para satisfazer suas vontades: é só clicar e acionar algumas teclas que, magicamente, haverá um conjunto de mundos para lhe satisfazer. É só escolher o que quer, comer seus desejos, lambuzar sua vontade. Não precisa se jogar ao chão e chorar em gritos para satisfazer seu individualismo.

A Doulos não é permitido compreender que os sistemas operacionais virtuais são criados para lhe fazer sentir-se rei, sem reinado; escravocrata, sem escravos. Um Dom Quixote: cavaleiro errante que imagina conquistar o mundo fora do tempo social. Doulos está aprisionado em seus desejos, suas vontades, sua egolatria. Centro do mundo perante uma tela, Doulos se distancia das pessoas e se afasta das exigências das interações sociais. Não precisa se justificar, se submeter a forças morais e éticas, explicar suas conectividades.

Além de seus 18 anos, Doulos se prepara para votar. O clima é de guerra, de confronto, dualidade: bem vs. mal. Doulos respira ares de superioridade ao entrar nos conflitos eleitorais, em contornos de “esquerda” e “direita”, do certo e do errado. Aponta o dedo em riste e solta agressividades, aspira violência. Doulos não aprendeu a dialogar, e escanteia a diferença como se fosse oposição. Não aceitar suas vontades é visto como ato perverso ao seu egocentrismo.

Doulos não consegue aprender que a diferença é o que ensina, amadurece, possibilita; que a verdade e as certezas emburrecem, criam ignorantes, geram idiotas. O voto de Doulos é uma vontade alimentada por repulsas, revoltas, confrontos, conflitos. Não apareceu nas telas de Doulos que o voto que ele aperta é uma escolha para todos, a desencadear caminhos para nosso futuro comum. O futuro a deus pertence, e Doulos não sabe rezar!

Depois de votar, Doulos voltou para casa e ligou o computador!

 

Sugestão de Trilha Sonora: UM TREM PARA AS ESTRELAS

Artista: CAZUZA

Autor: GILBERTO GIL e CAZUZA

Álbum: IDEOLOGIA

Ano de Lançamento: 1988

Imagem: DO AUTOR



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