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ÓDIO COMO MOBILIZAÇÃO POLÍTICA

JANUÁRIO, Sérgio S.

Mestre em Sociologia Política

 

São as emoções que mobilizam posicionamentos e intensidades de movimentos de uma pessoa. A racionalidade lógica serve como meio de objetividade sobre os fatos, como método de afastamento emocional e pessoal em relação aos acontecimentos. É assim que se difere opinião [pessoal] de argumento [reflexão]. As circunstâncias emocionais que acionam a agressividade e a violência de alguém, em geral, se dão por impulsos não controlados frente a situações de tensões [riscos, perigos e incertezas] alimentadas por trajetórias pessoais e aprendizados familiares e de grupos sociais de convivência.

Quando os impulsos emocionais são arrolados em meios digitais, o ecossistema da internet se oferece para conjugar o isolamento físico pessoal [offline] que promove ao protagonista a órbita virtual, de um lado, e a possibilidade de manifestação pública [online] na relação de muitos-para-muitos, sem precisar se colocar diretamente frente-a-frente com outros [interação virtual]. Discutir com alguém de forma presencial exige amparos em sistemas de valores sociais [respeito, moralidade, ética, linguagem não-oral] distintos daqueles que ocorrem na vitalidade virtual.

A identificação do “inimigo” dentro do mundo virtual ou aquela em condição de co-presença é operada de modo distinto. Falar com alguém “frente-a-frente” tem condição diferente do arcabouço da comunicação virtual. Nesta última, a composição da exposição se impõe “sem” reservas e a “coragem” de se dizer algo agressivo e violento se faz pela própria “covardia” potencializada pela dissolução virtual. A liberdade de expressão e sua correspondência em responsabilidades sociais difere substancialmente. E o “time” da interação é parâmetro de distinção entre as duas esferas [virtual e de co-presença].

O discurso de ódio é usado como mobilização política primeiro porque estimula as condições de vida emocionais das pessoas e dificulta a racionalidade lógica e o racionalismo reflexivo. O processo de dissimulação e correlações adulteradas da realidade promovem a identificação do inimigo e a necessidade de atacar sua reputação [calúnia, difamação e injúria]. Protegido pelas telas, o agressor se mostra corajoso, desde que “não-alcançável” diretamente.

O discurso de ódio, resultado afetivo de sentimentos, passa a traçar os horizontes pelo maniqueísmo [bem-mal, certo-errado, felicidade-infelicidade, dissimulado em direita-esquerda] e a posicionar o divergente como responsável pelos desgostos que amargam a boca e pelas angústias arrecadadas na caminhada pessoal. A Política perde o sentido de esperança [expresso em promessas] e se repõe em ecossistemas de confrontos [de eliminação do conflitante]. O debate baseado em diferenças de ideias é transferido para o campo de guerra no qual o inimigo deve ser extinto.

As redes sociais e suas condições de interação virtual alinhadas pelo algoritmo e, muitas vezes, aleatória, catalisam os discursos de ódio e potencializam as sintonias emocionais de agressividades e violências, especialmente no campo político. O voto passa a evaporar as esperança a favor de um futuro de benefícios coletivos e se volta ao confronto bélico, ao aprisionamento do inimigo e destruição de sua reputação.

O caminho trilhado pelo voto que perde o senso de esperança e futuro e desfruta da vingança da derrota do inimigo, ao olhar ao redor, verá apenas destroços e ruínas de guerra, restos do corpo da Democracia e de excomunhão do Espírito Republicano. Outrora a Política e o Voto moldavam outros encantos.

 

Sugestão de Trilha Sonora: SEGURANÇA

Artista: ENGENHEIROS DO HAWAII

Autor: HUMBERTO GESSINGER

Álbum: LONGE DEMAIS DAS CAPITAIS

Ano de Lançamento: 1986

Imagem: DO AUTOR



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