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NARCISISMO E VOTO PARA VIVER

JANUÁRIO, Sérgio S.

Mestre em Sociologia Política

 

Haveria um projeto biológico para nossa existência social? A Empatia [forma de perceber, no outro, coisas nossas sobre ser, estar, sentir, fazer...] é um condicionante da nossa natureza de existência? Por que, ao olharmos uma imagem planeta Terra do espaço ficamos emocionalmente influenciados? Quais as razões para encontrarmos nas formas tribais de vida certos aspectos que desejamos para nossa vida que atravessam nossas vidas de computadores?

As tribos revelam um conjunto de necessidades que deixamos de lado, especialmente as substancialidades das relações com os outros. O narcisismo é uma declaração sobre os desgastes que as pessoas apresentam consigo mesmas. Quando deslocamos a participação dos outros em nossas vidas, primeiro expomos, numa galeria de arte sem audiência, uma sobrevalorização pessoal. Logo depois, ali em frente, quando o vento frio na cara nos faz sentir o tempo [uma interação fora da gente], passamos a perceber um certo esgotamento individual.

Cansaço sobre a vida, esgotamento de si mesmo, dificuldade de sair de si mesmo, de sair para confiar nos outros e no mundo, acabamos por assistir ao próprio desmoronamento. Interagir com os outros, olhares diretos, toques comunicacionais, gestos com a cabeça, compromissos e cumprimentos, silêncios e falas, produzem as condições tribais de nosso projeto biológico: podemos estar em qualquer lugar de muitos jeitos, mas só podemos ser com os outros.

Pela procura descontrolada por visibilidades [likes, comentários descompromissados, contagem de visualizações] como meio de comunicação, espalhamos milhões de grãos de areia sem nunca formar terreno seguro para passos firmes. O ambiente digital promove o isolamento, desnutre a alteridade [reconhecer o outro como diferente e essencial na minha vida]. Nas técnicas de comunicação virtual cada um [como unidade isolada] pode estar em muitos espaços, mas sem princípios de realidade de comprometimento e cumprimento: ser com o outro.

Não há, neste mundo virtual, nenhum componente de resistência. A segurança se embarriga de uma bolha entre iguais. Dali, não nascerá nada de novo para a condição biológica de ser com os outros, senão autopromoção e autorreferenciamento. Ali eu só posso me encontrar comigo mesmo, num planeta narcísico. Neste mundo não posso ter convivência com nenhuma realidade de resistência. Pela evitação do contraditório, pela expulsão do oponente, em nome da certeza de que estou absolutamente certo, reforço os muros de meu isolamento de convivência social. Não sabemos o cheiro das outras pessoas pelas telas.

Com a quantidade exorbitante de opções de pages e links, o sujeito narcísico não é capaz de potencializar nenhuma experiência de intensidade. Perde-se no tempo e perde a cronologia de sua própria vivência. De uma página para outra já não sabe onde começou ou como terminar. Ali em frente viverá de seu próprio luto e buscará, inventando, na melancolia, o mundo que outrora existira. Mal saberá de seus pais, de seus irmãos. Não terá o que contar a seus descendentes, caso os tenha. Não terá como colocar uma cuíca dentro de repertório de orquestra porque não pode sentir na pele a experiência de uma canção.

A alegria de estar [aquela porção do riso instantâneo de uma piada] se perde quando a piada é repetida algumas vezes. A felicidade de ser [estado duradouro de bem-estar, a vida como pintura incompleta, de uma cor que se precisa, de um artista que se pinta] é sempre um projeto com os outros. A vida tem cheiro! Cheiro bom só por poder sentir cheiro com sentidos de história com os outros, barulhos cancioneiros, olhares interessados, sorrisos frouxos, lágrimas escorregadias.

Talvez, e somente talvez, você não devesse votar para um candidato, mas para alimentar sua fome de viver! Como outras coisas, votar é uma escolha para viver!

Sugestão de Trilha Sonora: CAÇADOR DE MIM

Artista: MILTON NASCIMENTO

Autor: SÉRGIO MAGRÃO e LUIZ CARLOS SÁ

Álbum: CAÇADOR DE MIM

Ano de Lançamento: 1981

Imagem: GERADA POR IA



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