NÃO O QUE VOCÊ DIZ, MAS O QUE SE REVELA QUANDO VOCÊ DIZ
JANUÁRIO, Sérgio S.
Mestre em Sociologia Política
Para saber de você as pessoas perguntam sobre como você encara a vida e as coisas, ou observam como você reage a situações críticas e tensas, e suas inclinações e interesses em momentos de calmaria. A linguagem é, antes, uma conversão de cargas emocionais. Quando falamos algo há, anteriormente, impulsos de valores que nos colocam em um “lugar”, numa posição social, moral, ética e hierárquica, mesmo as mais simples das conversas entre amigos. Não é a descarga de interesses objetivos frios como a expressão 1+1=2, mas a postura de se estar socialmente colocado nas relações sociais.
A linguagem é a expressão de organização do mundo que nos rodeia, das atividades do trabalho, do tempo para se fazer algo, da elaboração da autoridade [cargos e suas disposições], da ideia de beleza. É com a linguagem e na linguagem que podemos decifrar a maior parte dos estilos de vida, das condições existenciais, de como uma pessoa acredita que o mundo está organizado e como cada um crê que o mundo funciona.
Os verbos usados, a métrica exposta, as pausas e suas eloquências, os gestos a formar a impulsão, o olhar transferido ao som das palavras, tudo isso passa a traduzir sua identidade e suas formas de existência. O psicólogo pede que você fale sobre sua vida; o médico lhe requer a descrição dos últimos dias ou horas; o juiz lhe inquire sobre sua participação em algo. Ficar calado, embora comunique, pode inquietar as pessoas porque o mundo e as coisas existem pelo que se diz do mundo e das coisas.
Ainda que o uso do arado tenha sido fundamental na divisão de trabalho por gênero [domínio de animais e equipamentos pesados] e fonte de discriminação de gênero, a comunicação dessa forma de vida social foi validada e assegurada nas relações sociais. Antes da Revolução Industrial, os grupos que usavam enxadas e ancinhos se inclinavam a compartilhar o trabalho agrícola, enquanto o uso do arado separou as atividades de trabalho por gênero. Em cada um dos ambientes, a linguagem foi moldada de modo distinto.
É interessante imaginar como o período anterior ao jogo entre Brasil e Haiti [ocorrido em 19/06] foi organizado pela linguagem e condicionou compostos emocionais. Os extratos de expectativas colocavam a grandeza do País no gramado, na bola, nas chuteiras [O Brasil vai jogar]. O Brasil voltaria a ser grande de novo, apresentaria sua superioridade enquanto nação, e faria o mundo se render frente à capacidade de vencer dos brasileiros. Sem desqualificação do Haiti, as condições do confronto apenas poderiam mostrar o quão a Seleção Brasileira de Futebol [Seleção como “peneira” daqueles que considerados os melhores do Brasil no Futebol] poderia ser ruim, e não o quanto é boa. E isso muda a forma de pensar e sentir.
Da mesma maneira, a dissimulação política se revela na linguagem. Afirmar que alguns dinheiros encontrados na residência são fruto de diárias não usadas é, no mínimo, desprezo pelo público, pelo dinheiro público, pela Democracia, e pelos resquícios de República que temos. O desfecho se faz pela atitude de pai bondoso a promover condições de um rebento comprar um apartamento de maneira pouco usual.
A linguagem é capaz de mostrar o que podemos ser, o que somos e como enxergamos os outros e o mundo ao nosso redor. No futebol, podemos ser empurrados para imaginar a redenção, diante de uma demonstração de o quanto não somos ruins [o que não significa que somos bons]. E na política, passando de lado na linha da “cara-de-pau”, a dissimulação é a manifestação do caráter político, moral, ético e social ao qual estamos submetidos.
A linguagem é o campo da expressão dos sentimentos, dos sentidos de vida e das considerações morais e éticas que você tem pelos outros. Não o que você diz, mas o que se revela quando você diz!
Sugestão de Trilha Sonora: CELLO SUTITE 1
Artista: AILBHE McDONAGH
Autor: JOHANN SEBASTIAN BACH
Imagem: DO AUTOR