MICHELLE E O CONSERVADORISMO
JANUÁRIO, Sérgio S.
Mestre em Sociologia Política
No último ARTIGO EXITUS apresentamos que o Conservadorismo, como conceito da Sociologia e da Ciência Política, se mostra como resistência a mudanças e transformações sociais e políticas. O Conservadorismo é expresso em comportamentos dos agentes sociais, não pelo que exatamente dizem, mas pela interpretação do que dizem. Análise de Discurso e Análise de Conteúdo são duas ferramentas metodológicas utilizadas para se identificar, compreender, interpretar e explicar o Conservadorismo e qualquer manifestação relevante das pessoas e suas relações sociais. O conteúdo que nos forma é sempre aquele que mostramos nas relações sociais. Mesmo as dissimulações aparecem ali, e as máscaras sociais são parte do que deve ser investigado.
A forma de encaixes, recepções ou repulsas à participação da mulher na Política são expressões que revelam muitas arestas. Dizer-se Conservador como pregador de valores morais da sociedade, ou alimentar o Conservadorismo como proteção a riscos e perigos da fragmentação do indivíduo e suas escolhas sem luzes institucionais, é uma face social e política que apresentamos na vida. As revelações mais flagrantes se dão em momentos de pressão política e dificuldades de autocontrole emocional.
Michelle Bolsonaro virou ilustração aos argumentos do Conservadorismo. Vamos afastar quaisquer questões de disputa política na análise deste ARTIGO EXITUS. Se serve como motivação aos fatos, não servem como argumento central da análise. Qual o lugar da mulher na Política? Por que parece que as mulheres precisam da concessão masculina para acesso aos processos decisórios “fora da porta da casa”?
Rapidamente podemos falar que o lugar da mulher é o lugar que ela deseja. Sim, é a resposta direta. Mas cada vez que uma mulher, ou um negro, ou um indígena, acessa os centros de poder e os ambientes de decisão, logo será visto como “intruso à aristocracia”. Os “intrusos” não saberiam usar as palavras corretas, as correlações aceitáveis, os comportamentos assegurados, os dispositivos assentados; enfim, os padrões do poder. Michelle colocou na correia de transmissão o fato de que cada vez que um “estranho” acessa ao poder deve ser afastado porque ali não é seu lugar. A postura dos combatentes recentes de Michelle Bolsonaro é daquele que como um favor, teria concedido sua ascensão, e que, portanto, estaria em mãos masculinas a condição de deixá-la ou não continuar sua conduta.
A desqualificação da mulher no interior dos processos políticos, como favor e concessão, se manifesta pela forma segundo a qual é repudiada. “Desinformada”, “ignorante dos fatos”, “inexperiente” formam a energia de empurrar para fora do ambiente de decisões políticas e partidárias a condição de gênero. Não estão em debate as preferências políticas ou orientações ideológicas de qualquer um dos envolvidos. Isso não importa aqui. O Conservadorismo, ao se alinhar à manutenção das estruturas políticas e condições sociais de permanência do poder existentes contra toda e qualquer força inovadora, aparece rapidamente, e sem máscaras, nos momentos de crise, de dificuldades, de conflitos.
O Conservadorismo, para superar a ignorância conceitual, precisa mais do que exemplos de comportamento, mas controle intelectual [que cada um pode ter] para se ter controle sobre as próprias atitudes. Nós somos Conservadores em muitos e muitos aspectos. Mas isso não pode servir para desqualificar qualquer outra pessoa.
Sugestão de Trilha Sonora: COMO EU QUERO
Artista: KID ABELHA
Autor: LEONI e PAULA TOLLER
Álbum: SEU ESPIÃO
Ano de Lançamento: 1984
Imagem: DO AUTOR