INDEPENDÊNCIA E VIDA!
JANUÁRIO, Sérgio S.
Mestre em Sociologia Política
A História Política do Brasil é carregada de curiosidades. A Cultura Política do Brasil, por efeito, traz das curiosidades fontes de reverências contorcidas. Do Tratado de Tordesilhas [1494] que dividia terras descobertas e a descobrir entre Espanha e Portugal no período das Grandes Navegações, do período de Colônia Portuguesa na América [posteriormente Brasil] à Independência, a História tem muitas estórias.
Brasileiro é gentilício invocado pela existência social do trabalho em terras de pau-de-cor. Brasileiro é o ser do trabalho de extração e comercialização do Pau-Brasil, dependente da Aristocracia e do Império Lusitano, pronto para criar formas de subverter as regras caras à sua sobrevivência [“jeitinhos”]. Oriundo de atividade laboral, não surgiu de conquistas políticas, de cidadania, de empoderamento, da Política. Brasileiro e Pátria são seres distantes!
A Colônia Portuguesa na América, durante 382 anos [1500-1822] fora colônia de exploração, de busca de recursos para a riqueza imperial. Não se pretendeu firmar aqui uma nação, independência de qualquer natureza, nacionalismo de mínima fonte. Como de exploração, deixou aqui exploradores ansiosos pelo retorno ao Império ou serviu de área de fuga quando tudo se tornou perigoso para a Família Real em Portugal.
O Brasileiro surge como subclasse, como subalternos. Para fugir de tantas amarras criaram formas de enganar os sistemas de controle [Santo do Pau-Oco, por exemplo]. Ainda hoje contamos a História do Brasil pelos ciclos econômicos [Pau-Brasil, Cana de Açúcar, Café, Borracha...]. Enquanto na Inglaterra os sistemas de trabalho contavam com tecnologia de máquinas à vapor, sistemas industriais com instrumentos e ferramentas automáticos, a Colônia Portuguesa na América tinha como força motriz a escravidão, engenhos com animais de tração.
A Independência do Brasil ainda é apresentada, por vezes, como triunfo napoleônico, cavalos de guerra, envolvimento popular. Mero deleite europeu! Mulas, um riacho solitário, sem participação popular, a frase “Independência ou Morte” não tinha nenhum efeito de conquista ou soberania. D. João VI não fora jurado de morte e, nem mesmo, foi expulso dessas terras. Entre pai e filho havia mais acordos que desavenças.
Independentes, continuamos escravocratas, de economia agrícola de engenho, estruturados socialmente em padrões imperiais segregadores. A Bandeira Nacional [versão atual de 1889] traduz a Aristocracia [Verde-Casa Bragança a qual pertencia D. Pedro I e depois matas e florestas; Amarelo-Casa de Habsburgo da Princesa Leopoldina e, depois, ouro e riquezas; Azul-céu profundo e cenário para as estrelas-estados; Branco-faixa para inscrição Ordem e Progresso – lema do Positivismo Europeu]. Ser brasileiro é, antes de qualquer coisa, reconhecer a história na qual este ator surgiu na história.
A Independência do Brasil ainda precisa ser realizada e, de eleição em eleição, nos prometemos construir nossas virtudes pátrias. Talvez, o problema seja votar em candidatos e suas intrigas, assumindo-as se nossa fossem, e esquecemos de votar na construção de nosso futuro comum. Eleição, diferente de bingo ou jogos de azar, tem o espírito de responsabilidade coletiva, ainda que seja opção pessoal. Como a Independência, é em relação aos outros.
Você vota para o futuro dos outros e daqueles que ainda não nasceram. Independência anda de mãos dadas e abraços afetuosos com Cidadania – valor político comum a todos.
Sugestão de Trilha Sonora: E VAMOS À LUTA
Artista: GONZAGUINHA
Autor: GONZAGUINHA
Álbum: DE VOLTA AO COMEÇO
Ano de Lançamento: 1980
Imagem: DO AUTOR