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FUTEBOL, PELEJA E COMPORTAMENTOS POLÍTICOS

JANUÁRIO, Sérgio S.

Mestre em Sociologia Política

 

Por sermos seres que necessitam viver em grupo, o comportamento humano não pode ser interpretado e compreendido de modo isolado. A interação em grupos sociais e comunidades constrói e molda valores, atitudes, pertencimentos e identidades. Nenhuma política pública ou qualquer intervenção em sociedade pode ser executada de modo eficaz e eficiente sem a interpretação da formação coletiva do grupo afetado.

O esporte é uma das formas de revelar impactos profundos de organização e padrões culturais de um grupo social. E quanto mais popular for sua prática, mais elementos psicanalíticos e de estruturas sociais de uma sociedade podem se mostrar para a observação. Muitas pesquisas e estudos sobre o comportamento de multidões e de massas apresentam resultados sobre as razões e motivações para determinados comportamentos sociais e políticos de grupos sociais.

A identidade social de uma sociedade se mostra pelas formas de organização coletiva que superam os objetivos iniciais de um indivíduo. São os movimentos de “onda”, como se fosse inevitável ter que fazer algo que se acredita que todos farão e, ao mesmo tempo, se sentir impotente para se fazer diferente. Além de “empurrar” as pessoas por um determinado caminho, apoiado em “segurança de manada”, as “ondas” recrutam os parâmetros de padrões de pensamento. Estes ciclos também influenciam ou determinam as formas de organização estrutural de uma sociedade, com a revisão imediatista de legislação [Emendas Constitucionais ao sabor “do cliente”], ou definição de políticas públicas “populistas” em resposta às possibilidades de “crises” sociais ou “desgastes” políticos e eleitorais.

O futebol, como o esporte mais popular na sociedade moderna, é revelador de como uma sociedade pode ser entendida. Originalmente, pequenos espaços [o corredor de um ambiente qualquer ou uma área para uso coletivo em uma comunidade] servem para estruturar sua prática. Uma bola [até mesmo de meia] é suficiente para começar o jogo, ainda que seja uma única pessoa. Quando expandido para sistemas mais organizados os aspectos coletivos se expandem.

As formas de expressão revelam as condições e predisposições psicanalíticas de um grupo: “gritos de guerra”, “batalha”, “peleia”, hinos e bandeiras [tal qual um país], estrutura administrativa [presidente, cartolas como símbolo de hierarquia, diretores, funcionários]. A disposição organizacional dos atletas e suas posições se equivalem a um exército medieval: arqueiro, artilheiro, atacante, zagueiro [retaguarda]. Expressões de atos somam-se ao sistema de comunicação: tiro ou tirambaço, bomba, fuzilar, foguete, torpedo, matar a jogada. Por fim a classificação do resultado é inspiradora: “deu zebra”, na luta com o “leão”, como resultado improvável, inesperado.

Há, no futebol, sistema de comportamento social e político revelador de como somos e de como organizamos motivações para nossas atitudes cotidianas. Vencer ou ser derrotado, sentir vergonha diante da identidade de grandeza e expectativas, ou efusão coletiva por uma conquista. A partilha desse jogo para o campo Político e Eleitoral acirra a disputa eleitoral não pelo desejo de um mundo melhor, mas pela profusão de derrotar o adversário. Eleição como revolta e satisfação de vencer uma guerra, com planos de desenvolvimento em lateral, são aspectos reveladores de como somos, das motivações ao voto, da satisfação em vencer o desafeto. Mais uma vez a Política deixa de escanteio a esperança, pela satisfação e alegria diante da dor do derrotado. Policarpo Quaresma, patriótico apaixonado e idealista metódico, poderia imaginar tal situação? Podemos preencher nossos álbuns de figurinhas e de idolatria, sem esquecer as consequências da esperança no clicar do voto. Eleição não é guerra!

 

Sugestão de Trilha Sonora: SONHO IMPOSSÍVEL [THE IMPOSSIBLE DREAM]

Artista: MARIA BETHÂNIA

Autor: MITCH LEIGH and JOSEPH DARION [VERSÃO DE CHICO BUARQUE]

Álbum: SONHO IMPOSSÍVEL

Ano de Lançamento: 1992



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