“ESTOU NA CORRERIA”
JANUÁRIO, Sérgio S.
Mestre em Sociologia Política
“Estou na correria” virou mensagem corriqueira para se dizer sem tempo. A expressão revela muito de nosso tempo. Declara, especialmente, técnicas e estrutura de tempo de nossa vida e da atenção que damos às coisas e às pessoas ao nosso redor. Na “correria” é a condição segundo a qual não temos domínio do “eu” no tempo e que não conseguimos dar atenção contemplativa ao que nos envolve. As técnicas de uso do tempo [ou de ser empurrado no tempo] e as técnicas de conceder atenção profunda à contemplação [ou só ter tempo para descansar dos excessos do dia] não apresenta nenhum progresso civilizacional.
Viver como “indivíduo multitarefa” é semelhante a estar em condições de um animal selvagem. O excesso de “planetas solitários” que devem se fazer pelas suas próprias conquistas individuais, dá a sensação de liberdade irrestrita, de potencialidades infinitesimais, de positividades incalculáveis. “Basta você acreditar em você que você será capaz de superar seus desafios e conquistar todas as vitórias!” Não! Embora seja importante você ter autoconfiança, impulsos motivacionais, por óbvio não é suficiente. O próprio corpo tem limites e as condições sociais e materiais também são perímetros.
Viver sob tempo fragmentário e atomismo existencial é próprio dos animais selvagens. Um animal selvagem vive em condições de multitarefa: enquanto se alimenta [morde o alimento e o mastiga] deve ficar atento para não virar alimento, deve olhar para sua cria para protege-la de adversidades, observar os avisos instintivos de seus semelhantes, procurar fontes de água e áreas de fuga. O animal selvagem não é capacitado para nenhum ato contemplativo. Não dá para parar e olhar o campo sem pré-ocupações, contemplar o nascer do dia ou o pôr do sol, banhar-se apenas para brincar de viver. O animal selvagem está sempre na “correria”.
Um ser multitarefa não encontra motivações para observar-se no mundo, para brincar sem ter que vencer, para agir sem ter que superar algo. Subir numa árvore não parece mais possível, substituído pelas horas vagarosas no trânsito ao redor de uma multidão de “unidades humanas” nas mesmas condições: cada qual em seu lugar, encaixado em sua “caixa-metálica-de-proteção”, membro de uma manada. Ler para aprender algo é atividade impossibilitada na correria: ninguém pode gostar ou entender uma mínima página na “correria” – melhor um audiovisual de 30 ou 60 segundos.
Num ambiente que se exige em multitarefa, hiperatenção dispersa e déficit de atenção, avalanches de informações, atividades cruzadas e múltiplos processos, vivemos alertas para não sermos alimentos de outros enquanto nos alimentamos. Não há descanso espiritual, cuidado consigo mesmo ou parada para se proteger. Contemplar uma música é algo distinto: eis porque as músicas se tornaram peripécias sobre desafios pessoais atomizados e deixaram para outro mundo e tempo a música-arte. Imagino que alguns possam pensar que música é preferência pessoal e tudo se resuma a isso: preferência pessoal. As músicas passam a revelar-se para mim, como se tivessem sido construídas para mim, para meus sentimentos e minhas adversidades íntimas. Própria do tempo em que vivemos.
A Política, embora hoje tratada pelo heroísmo de alguém que descobriu o diabólico, deixou para trás, ao menos por este longo “por enquanto”, o fato de ser a “arte da esperança”, o planejamento possível de um futuro comum. Como o fim do arco-íris, virou pote de ouro para conquista individual ao conjugar poder de decisão política e dinheiro público. SERVIR não consegue ser conjugado.
A experiência de ser não tem a velocidade da “correria”!
Sugestão de Trilha Sonora: TIGRESA
Artista: CAETANO VELOSO
Autor: CAETANO VELOSO
Álbum: BICHO
Ano de Lançamento: 1977
Imagem: GERADA POR IA