CÃO ORELHA, EDUCAÇÃO E VOTO
JANUÁRIO, Sérgio S.
Mestre em Sociologia Política
A violência urbana se expõe nos mais variados territórios sociais. As perturbações que nos rondam e que praticamos pode parecer encadeamento entrópico, uma sensação de desordem, de caos existencial, fim da linha. A entropia [“desordem” de um sistema] procura sua própria tentativa de organização diante dos problemas de relações e interações dentro desse mesmo sistema.
A violência que por ora se narra, expõe as feridas das dificuldades extrema de se viver sob LIMITES e aceitá-los como ponderação necessária para se viver em grupos sociais. Os limites não são constrangimentos aos processos de vida em comum, mas protetores da própria relação social e nos libertam dos princípios mais primitivos de espécie. A expressão que as crianças mais ouvem de seus pais, enquanto estão sendo preparadas para a vida social, é “não”: não pode, agora não, não faça isso... E não há nada de errado com isso, principalmente acompanhada de explicações e justificativas ante os resultados adversos. A “Inclusão do Outro” [Jurgen Habermas] principia pelo limite social para ampliação da liberdade.
O desejo de ser destaque social, de se obter distinção, pode se manifestar em FRUSTRAÇÕES. Administrar as frustrações [especialmente as que têm origem em traumas psicológicos] é fundamental para que se possa substituir ofensas e agressividades por diálogos, caminhos pelos quais se possa “se ver” objetivamente e observar a situação de dificuldade isolada dos terremotos emocionais. É preciso falar sobre isso e “se falar” sobre isso.
Numa sociedade segundo a qual o culto à “personalidade” e a cultura da “pessoa” – aquilo que se desenrola como distinto por ser algo pessoal, “raro, distinto, único, exclusivo, diferente, insubstituível, incomparável, original” contra o “vulgar, banal, qualquer, ordinário, médio, habitual, trivial” ou a oposição entre o “brilhante e o fosco, fino e grosseiro, requintado e rude, elevado e baixo” [BOURDIEU, Pierre], criam forças e parâmetros para a formação de uma visão de mundo social: do particular contra o coletivo promovidos pelo egocentrismo e individualismo. Essa forma de entender e organizar o mundo tende a colocar o outro como objeto para os desejos do ego [reificação]. As disposições sociais contrárias ao individualismo e egocentrismo são vistas como opressoras aos desejos pessoais e, então, os limites e as regras morais são administrados para serem transgredidos.
Essas disposições individuais geram os tronos monárquicos nos quais os “reis e rainhas” imaginam produzir suas próprias leis de existência absolutista. As leis que em sua origem servem para organizar a todos num sistema, servem como desejo pessoal, como caminho para organizar os outros às minhas vontades, a orbitar em torno de minhas vontades. A própria transgressão serve como alimento e referência de força para me fazer prevalecer. Os limites e as coações sociais, quando superadas, constituem premiação de meu ânimo íntimo.
A banalização da violência urbana é fruto do “esquecimento social” de que o outro está ali “como se fosse você” e não “para você” – aqueles tão diferentes que viverão com você o mesmo dia. Você tanto precisa deles como você “está com eles”. Os outros não serão escravos de seus imperativos pessoais. Não será com castigos e açoites num tronco que você fará verter sua vontade. Ela precisa ser negociada como negócio moral e ético!
A agressividade e a violência são meios pessoais para a punição social. Querendo ser distinto e superior, você as violará. Os movimentos relativos ao “Cão Orelha”, à violência contra a mulher, aos crimes urbanos [furtos, roubos, latrocínios, homicídios...], às rupturas das regras sociais [dissimulação e mitomania], são expressões de algo mais profundo em sociedade: a necessidade de se educar às pessoas para a vida diante da necessária inclusão do outro. Respeito, pedidos honestos de desculpas [não aqueles que são iniciados por “se alguém se sentir ofendido”, mas os dotados de senso de erro], cuidado com os outros ao seu redor [como recolher o lixo jogado na rua como ato de responsabilidade social em nome de todos]. Não é o lema piegas de “paz cega”, mas a condições de expandir sua vida entrelaçada a dos outros.
As leis punem e dão limites pelo temor à punição, pelo temor da punição! A educação protege por orientar à convivência relativamente estável e é mais duradoura. A violência contra animais, meio ambiente, e contra os próprios humanos – as quais são narradas cotidianamente, deve servir como aprendizado. Essa entropia social deve nos oferecer condições de nos protegermos de nossos próprios riscos, perigos e deslocar as incertezas sociais a padrões de segurança ontológica mais adequadas à vida em grupo [de todos os tamanhos e intensidades]. A liberdade é limitada: o primeiro passo é de escolha e decisão, e parece ser o mais sublime porque o ego se torna rei; o segundo passo são as consequências das decisões, que é o mais sublime porque inclui os outros!
A Política é o sistema amplo para isso, e o voto um dos meios. O cotidiano é o microssistema mais pragmático para isso, e a atitude de todas as horas o meio mais eficiente para isso!
Sugestão de Trilha Sonora: NÃO É CÉU
Artista: VITOR RAMIL
Autor: VITOR RAMIL
Álbum: TAMBONG
Ano de Lançamento: 2000
Imagem: UNSPLASCH