BRASIL-ABACAXI: NEM LULISMOS, NEM BOLSONARISMOS
JANUÁRIO, Sérgio S.
Mestre em Sociologia Política
Desde o período em que não chegamos ao dia seguinte, especificamente a partir de 2010 [início da Presidência de Dilma Rousseff, destituída em agosto de 2016], vivemos num confronto entre duas correntes que obscurecem nossas diversidades políticas. Se as lutas e discussões políticas são inevitáveis, necessárias e vitais à vida política, o confronto empobrecido de duas alas se mostram ocas em proposições ao nosso futuro comum. Entramos em uma ‘guerra manca’ cujo objetivo é o poder de derrotar o ‘inimigo’. Resultados em mãos, vencedor e vencido xingam, distorcem, agem com violências de todos os tipos [confrontos e mortes já ocorreram]. Em nome da liberdade usa-se o castigo, o medo, o ‘escravismo-autoritário’ para levar o “adverso-opósito” ao sofrimento da humilhação da derrota [linguagem sobreposta].
O ambiente desfavorece! Diante da tela não há o outro ao condutor dos teclados que se sente condição da existência do mundo, controlador das operações, detentor do poder. Numa sociedade cuja organização se estrutura por meios virtuais [isolado numa nave pronto para o ataque ao Planeta Terra e seus habitantes], procura-se um herói, defensor de minha vingança, vingador de minha revolta. A ausência da co-presença desfaz todos os requisitos morais e éticos da convivência, do autocontrole diante do outro, e libera os crivos opressores da linguagem.
Estamos ainda em 2016, congelados no tempo, paralisados na política, repetindo eleições: comportamentos iguais, ânimos atolados nas mesmas disputas eleitorais, cimentados com cimento nos resultados. Reclamar ao governante, do governante, é aconchego de egolatria, manifesto de egomania. Numa sociedade sem rumo, se postar antissistema aventa cheiros de rompimento, arrota-se o que não se comeu, sente-se o que não se experimentou. Ficamos indignados sem saber sobre o que, ausente de respostas aos “por quês”. Apontamos ao “soldado inimigo”, atiramos para abatê-lo, como se ali, eliminando-o, pudéssemos tatear a paz. Sem solução, ficamos com a repulsa indignada! Necessário dar uma cara ao xingamento: “Fora Tu!”, “Ladrão você!”, “Corrupto, Vossa Excelência!”
A fragmentação do mundo e das pessoas é tamanha que o ridículo aparece nas dúvidas: ‘Terra plana’, ‘Inexistência de Ditadura Militar entre 1964-1984’, ‘Desmerecimento de confirmações sobre Aquecimento Global’, ‘Urnas Eletrônicas e fraudes Eleitorais’... Qualquer coisa é pretexto para discussões e ‘bate-boca’ virtual. Nem ‘Lulismos’, nem ‘Bolsonarismos’ vão descascar este Brasil-Abacaxi. Ao contrário, essa polarização nos tem paralisado na política, nos congelado no tempo! Os resultados eleitorais são confirmação de inépcia e imobilidade.
Precisamos, em urgência-urgentíssima, superar a intolerância, aceitar as diferenças, provocar e admirar o diálogo. Como dizia meu querido e amado pai: “Quem grita perde a razão”. E a perde em dois sentidos: no estado emocional de si, e na conduta moral da discussão ao cair em xingamentos e não conseguir ouvir o que lhe é diferente ou oposto. Nessa fábrica de congelados de candidaturas, de oposicionismo de guerrilha, de falcatruas de linguagem lógica, de desfaçatez diante de jornalismo-político qualificado, o gosto pelo voto-de-açoite lembra que o chicote [voto] é bom quando se segura o cabo para fustigar animais ou castigar pessoas.
O Brasil-Abacaxi é um desafio que não será descasco por “Lulismos” ou “Bolsonarismos”. Esse desfralde e ‘desfraude’ requer um salto no tempo além de 2010.
Sugestão de Trilha Sonora: UM TREM PARA AS ESTRELAS
Artista: PESSOA NEFASTA
Autor: GILBERTO GIL
Álbum: RAÇA HUMANA
Ano de Lançamento: 1984
Imagem: GERADO POR IA