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A TROCA DE PASSES DA INTERAÇÃO SOCIAL

JANUÁRIO, Sérgio S.

Mestre em Sociologia Política

 

A interação social é um dos conceitos mais interessante da Sociologia. Uma versão mais simples se refere a um sistema de influências recíprocas decorrentes da comunicação entre indivíduos ou forças sociais. Condições geográficas, culturais, políticas, morais influenciam a vida das pessoas que, ao mesmo tempo, são capazes de influenciar a existência dessas forças sociais. Uma versão mais aprofundada diz respeito às interações simbólicas ou aquelas segundo as quais as relações se dão por meio da comunicação que, por fim, são constituídas por sistemas de símbolos [valores, regras, história social...]. São os símbolos que possibilitam a formulação da comunicação e que serve de estrutura para a interação social. A última noção de interação social se refere à capacidade de alguém interagir consigo mesmo, reconsiderar-se no mundo, perceber-se como se o analista lhe fosse uma exterioridade [ver-se no espelho, como metáfora].

Para conseguirmos interagir é necessária alguma espécie de contato. As equipes de futebol podem ser uma inspiração. Os times que trocam mais passes entre si, muitas vezes sem gerar muitas consequências ao objetivo de marcar gol, são aquelas que apresentam interações mais intensas, reconhecimento de grupo, de trabalho em equipe, de intensa coesão social. São capazes de perceber o movimento dos companheiros rapidamente e de se antecipar ao que pode parecer um problema. Compreendem que as soluções se darão em grupo e, por isso, são menos dependentes de ídolos, mitos, celebridades. Trocar passes não é se livrar da bola e deixar de ser observado pelo adversário, mas de fazer com que os outros entendam rapidamente que para vencer o jogo precisam vencer a equipe.

Todos ali, ao trocarem muitos passes entre si, demonstram que não há mais do que um indivíduo naquele campo. Há uma equipe completa, carregada de ideais coletivos, emoldurados de compromissos de equipe, fixados em objetivos comuns. Os riscos diminuem, os perigos são menos tortuosos e as incertezas são rapidamente vencidas, quando se estabelece que todos formam uma única organização. Os abraços logo pós a conquista de algum objetivo são reveladores de alegrias de grupo, satisfação para todos. Sem ídolos, sem mitos, sem idolatrias.

Nos nossos dias, de forma geral, ao interagirmos com os outros, passamos a formar o “nosso grupo”, a “nossa equipe”. Nos processos mais “leves” não encontraremos um ídolo, nem reforçaremos uma celebridade. Quando fazemos isso criamos valores e regras de hierarquia e dominação. O “Grande Ser” tenderá a se alimentar da fraqueza dos idólatras, da dependência dos diminuídos, do alimento dos famintos.

O eleitor, ao se depara com os candidatos, poderá tê-lo como um “ser superior” e, neste caso, formará a hierarquia necessária para ser dominado. A liberdade do eleitor dependerá da troca de passes que puder fazer com o candidato, das interações simbólicas capaz de formar uma equipe, da coesão social mais profunda que se revela em respeito mútuo. O candidato é, antes, um ser a trocar passes, a se colocar como membro de um grupo, a desfazer a idolatria, a destituir o mito da superioridade política.

O eleitor, quando se perceber cidadão, considerará cidadão qualquer outro cidadão, ainda que as funções para se conquistar os objetivos sejam diferentes. Diferenças de funções não remetem, necessariamente, a desigualdades sociais e políticas. Enquanto nos xingarmos para poder votar, tomaremos “uma vareio” sem ideologias.

 

Sugestão de Trilha Sonora: ESTE AMOR

Artista: CAETANO VELOSO

Autor: CAETANO VELOSO

Álbum: O ESTRANGEIRO

Ano de Lançamento: 1989

Imagem: DO AUTOR



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