A LIBERDADE QUE OPRIME
JANUÁRIO, Sérgio S.
Mestre em Sociologia Política
A consciência de si é um dos temas mais intensos da Filosofia e da Psicologia. E nos dias atuais absorve, como esponja na água, mais relevância. Na Modernidade, os mecanismos psíquicos [freudianos] se formam por um conjunto de sistemas de proibições e controle. A disciplina dos ajustes morais e das cargas éticas, das coagulações espirituais e dos pulsos repressivos, construíram os muros de uma sociedade restritiva. As instituições sociais, políticas, religiosas, da disciplina do trabalho, da autoridade edificada em hierarquias, dava conta dos controles sobre o sujeito [estar sob sujeição]. A Modernidade foi criada nos fundamentos da Sociedade Disciplinar: um Deus para todos!
O período no qual vivemos e olhamos em torno do que nos cerca [como se fôssemos o centro das coisas], apresenta mudanças consideráveis. Patologias vinculadas à existência social e constituição psíquica dos indivíduos declaram este novo modo de ser. O mais extraordinário é que escravidão e liberdade formam o mesmo ser. A Sociedade do Desempenho [cf. HAN, Byung-Chul, 2024] cutuca as teclas e as telas em busca de validação. Quantos seguidores? Quantas curtidas? Quantos comentários?
A legitimação social que antes se encontrava no trabalho, no mercado, na prática religiosa, nos rituais festivos familiares, nas festas entre amigos temperadas em cosméticos [elementos para lhe colocar no cosmos da vida], agora está no infinito mercado das redes sociais. Os indivíduos se tornam mercadorias [influencers, monetizações, busca de validação em imagens sorridentes que ignoram tristezas, dificuldades, desleixos]. De tudo, em tudo, se julga, se criminaliza. De tudo se pode desconfiar: voz, imagem, comportamento, gestos... podem simplesmente não existir.
A liberdade narcísica assume todas as instâncias e aprisiona aquele que se imagina alforriado. O sujeito [antes sujeitado] já não se sujeita. O trabalho já não é travessia ao sucesso social. Nunca ouvimos tantas vezes num mesmo dia a quantidade de trambiques, golpes, falsificações. A sensação de liberdade, neste caso, é obter vantagens sobre terceiros, mesmo que seja em pequena quantia. É a sensação de prazer ao se conseguir a vantagem como gratificação pessoal e que move a psique.
O indivíduo da Sociedade do Desempenho procura, em tudo, o prazer. O trabalho e suas regras devem se contorcer em possibilidades prazerosas em HomeOffice, horários flexíveis, obediência ajustada pela sensibilidade. Hierarquias são encontradas nas dificuldades de resultados operacionais. Não se trata mais de seguir a voz de um outro, a ordem de terceiros, a obediência institucional, mas de se ouvir a si mesmo. As dificuldades de relacionamentos pessoais são como exorcismos inconclusos.
A liberdade para si não emancipa, não liberta, não alforria. Ao contrário, encontra novos limites, obstáculos, desafios. Se o reconhecimento social se dá na relação com o outro, a gratificação narcísica [diferente de amor-próprio] esbarra na falta de relacionamento social. Sem o outro não há experiência social e os transtornos [Burnout, depressão, síndrome de hiperatividade, déficit de atenção] aparecem. É a autoexploração que cria o Senhor e o Escravo no mesmo corpo, na mesma existência: a necessidade de desempenho permanente não encontra um fim, não cumpre uma meta, não tem o resultado final. As redes sociais são o infinito que ocorre agora. Não se confunde com esperança!
Quando se concorre consigo mesmo, o limite estará no esgotamento de si mesmo. É a consciência de si que liberta!
Sugestão de Trilha Sonora: ALMA
Artista: ZÉLIA DUNCAN
Autor: ARNALDO ANTUNES e PEPEU GOMES
Álbum: SORTIMENTO
Ano de Lançamento: 2001
Imagem: gerada por IA