BÊBADOS NA CORDA BAMBA: O ESTADO BRASILEIRO
JANUÁRIO, Sérgio S.
Mestre em Sociologia Política
Há candidatos à Presidência da República [último termo é corpo sem espírito, puro nominalismo] que asseguram que baixar impostos é suficiente para diminuir os preços dos alimentos. Fácil assim, já teria sido feito e o Capitalismo não teria problemas em sua estruturação espiral. Há candidatos ao Senado que sugerem que com este ou aquele candidato eleito então farão a repactuação da distribuição do orçamento público entre os estados de acordo com o que enviam para Brasília: “neste estado, para cada R$ 100,00 enviados, voltam apenas R$ 10,00, R$ 20,00. Vamos mudar isso! ” Já ouvimos isso em eleições anteriores.
Há semanas vivemos o drama político de “potencial” envolvimento [direto ou terceirizado na estrutura de parentesco] de ministros do STF. Motivo suficiente para inclinação eleitoral posto que os ministros são indicação da Presidência da República sob aprovação do Senado Federal. Os principais candidatos não escapam desse problema.
Há meses observamos deputados [estaduais e federais] reivindicarem a “façanha” de terem “trazido” dinheiro para os municípios [desdobrados para o estado]. É dinheiro público e cada um tem “direito” a sua cota. A façanha foi termos as emendas parlamentares e deslocarem dinheiro do executivo para o parlamento.
Há anos ouvimos que é preciso de emendas parlamentares para adaptarmos as leis às necessidades atuais. Nossa Constituição Federal não tem eira nem beira [relação de riqueza e status social, eira é área destinada à secagem e limpeza de cereais, e beira significa casa com acabamento completo de construção]. O conjunto de emendas constitucionais a deixou mais pobre e vulnerável, sem destino e sem rumo.
Por décadas nos cobrimos de esperanças a cada eleição como sinal potencial de mudanças, de transformação social e correção de rumos. Na década de oitenta desfrutamos da liberdade individual, política, social, artística [veja-se o nome das bandas da época] e desastres econômicos cumulativos. Não sabíamos como viver a liberdade; nossa formação foi de lutar por ela. Nos anos de 1990 conseguimos a estabilidade econômica [Plano Real] e estabilidade política [Reeleição e Lei de Responsabilidade Fiscal]. O Estado se organizara e nos permitiu segurança política e jurídica. Nos anos 2000 conseguimos a inclusão social, especialmente do acesso dos mais pobres ao mercado [consumo por financiamento assegurado por estabilidades], na educação superior, na profissionalização qualificada.
Faltou-nos a Política Liberal e a Economia Liberal combinadas para darmos os passos seguros realizados pelos países desenvolvidos. Desde lá [2010], vivemos na corda-bamba sobre a qual balança um Estado Desorganizado, Parlamentares Duvidosos, Presidentes Fraquejantes e, por fim, Ministros do STF brigando como em mesa de bar, embebecidos pelo poder. Carmem Lúcia estampou a vergonha de representar a agonia do estupor [estado de baixa consciência].
Não, as eleições não nos salvarão desse caos! A mudança de pessoas não provocará as transformações estruturais necessárias para salvar o paciente. A cirurgia precisará de especialistas, instrumentos adequados, suportes, ambientes protegidos de vírus e bactérias, luzes, concentração e tempo. Quando não se cuida da saúde [a perdemos a partir de 2010 e não a recuperamos até então] é preciso tratar das patologias [que dá sinais intensos quando limitam nossa existência]. Precisamos mais do que as eleições podem nos dar!
Sugestão de Trilha Sonora: O BÊBADO E O EQUILIBRISTA
Artista: ELIS REGINA
Autor: ALDIR BLANC e JOÃO BOSCO
Álbum: ESSA MULHER
Ano de Lançamento: 1979
Imagem: DO AUTOR