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A “FESTA DA DEMOCRACIA NA” SEGUNDA-FEIRA

Uma das maneiras mais importantes de se compreender uma sociedade, grupo social, junção de gente, relações entre pessoas e das pessoas com as “coisas”, é se concentrar na forma e no conteúdo como expressam vontades, desejos, quereres; como expressam compreender o mundo e a vida e como se colocam neste mundo e na própria vida; como falam das coisas e das outras pessoas; como avaliam e quais critérios usam para avaliar, organizar, dar fluxo à vida; o que deixam de lado e no que se concentram em ênfases, euforias, desencantos, marcas, feridas, sorrisos, conquistas... O que se diz, como se fala, quais palavras de recorrência, com que métrica, como olham enquanto falam, com que contrações os músculos faciais se movem, gestos, intensidade... A vida é como uma canção: precisa de interpretação e intensidade, voz e encantos.

Ouvimos muito, especialmente nos últimos dias, que a “Festa da Democracia” se realiza pelo voto. A “Festa” acabou! Resistem ainda disputas para um cargo ou outro no Brasil. Para alguns, da “Festa” resta a tormenta da ressaca: cabeça dói, corpo se contrai, o mundo gira em contrações. Para outros o aprendizado: os erros como amigo que ajuda a rever e a orientar. Para uns poucos a sensação de reinado em império de vontade pessoal: eu venci, os eleitores me deram a chancela de decidir como eu quero: personalismo imperial!

Segunda-feira é dia de trabalhar, recomeçar, reeditar a vida, procurar vencer dificuldades. A “festa” se fora, o dia chama, o café aquece e anima, o pão satisfaz, a escola está à espera, o ônibus já vem, o trânsito se demora... O almoço, a conversa, o silêncio, as imagens no telefone a nos aprisionar e a ficar anos-luz do defronte.

Não sabemos de nosso futuro comum! Não temos pinceladas para aqueles que estarão conosco, mas ainda não nasceram! Propostas, Planejamentos, Planos? Não há, não houve! Pelo fermento de revoltas vimos crescer, ano após ano, o volume de vinganças. Pobre figura de osso e carne, de seivas avermelhadas, que entra na guerra, que vota contra o adversário e desmemoriza os dias seguintes.

“Amanhã”, “depois”, “daqui a pouco” são expressões que nos fornecem a eternidade. Amanhã, ao chegarmos nele, estará no dia seguinte! Vamos persegui-lo sem poder agarrá-lo. A espiritualidade, o sacro, só pode existir pelos sentidos de futuro. A salvação vem depois, após! A Política, como esperança de organizar a vida-futura, é a expressão mais concreta aos caminhos que desejamos seguir. Exatamente por este aspecto que políticos prometem, dizem o que deveria ser feito, o que se pretende para nossos dias ali em frente!

Enquanto nos desgastamos com conflitos [em nada ideológicos] e confrontos revoltosos, perdemos o futuro, deixamos o amanhã para ontem. A Educação – escola, professores, materiais, transporte, segurança, aprendizado... reclamaremos aos amigos e vizinhos; as ruas e infraestrutura urbana; preços, custos, carestia serão desalentos; tiros, armas e drogas fervem desabafos. E não percebemos que o voto, as eleições, a Política são as estruturas que provocam dias que se farão.

Os sentidos de combate fazem perder a racionalidade, estimulam instintos primitivos, corrompem o bom senso! Precisamos mais do que as eleições podem nos dar! A Cidadania tem grandezas mais valiosas para nosso futuro comum.

 

Sugestão de Trilha Sonora: PROCISSÃO

Artista: GILBERTO GIL

Autor: GILBERTO GIL e EDY STAR

Álbum: LOUVAÇÃO

Ano de Lançamento: 1967

Imagem: GERADO POR IA



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